A ameaça que usa crachá: por que o risco interno é o maior desafio da segurança cooperativista
- Editoria Cred.Ufes
- 30 de jul.
- 3 min de leitura

Durante anos, a conversa sobre segurança cooperativista digital nas instituições financeiras girou em torno de firewall, criptografia e autenticação em dois fatores. O vocabulário era de perímetro: como impedir que alguém de fora entre. O caso da cooperativa de Brasília, revelado em junho de 2026, coloca em evidência uma vulnerabilidade diferente, mais antiga e mais difícil de resolver.
A ameaça que usa crachá.
Um funcionário com acesso à rede interna abriu caminho para um grupo criminoso que, em menos de quinze minutos, desviou mais de R$ 5 milhões via Pix. Foram 425 transferências automáticas, uma a cada dois segundos. O dinheiro foi convertido em cripto ativos antes que qualquer sistema de resposta pudesse ser ativado. Sete mandados foram cumpridos em três estados. Ninguém foi preso.
O que diferencia esse ataque da maioria dos incidentes cibernéticos registrados no setor não é a tecnologia envolvida. É o elemento humano. O grupo não precisou forçar a entrada pela infraestrutura técnica. Precisou apenas convencer, recrutar ou coagir alguém que já tinha a chave.
O paradoxo da confiança
Cooperativas de crédito enfrentam esse desafio em condições especialmente delicadas. O modelo cooperativista é fundado na confiança entre pares. Admitir que um colaborador pode ser o vetor de um ataque vai contra a cultura institucional que dá sentido ao cooperativismo. E essa resistência cultural, legítima em seu espírito, cria pontos cegos que grupos criminosos aprenderam a identificar e explorar.
Não se trata de desconfiar de pessoas. Trata-se de estruturar processos que protejam a instituição independente da intenção de quem opera dentro dela.
As boas práticas de segurança institucional estabelecem princípios claros para isso: segregação de funções, onde nenhuma pessoa concentra sozinha o poder de iniciar e autorizar uma transação de alto volume; monitoramento de comportamento, que detecta padrões anômalos antes que o dano se concretize; e revisão periódica de acessos privilegiados, garantindo que apenas quem precisa de determinada permissão a possui, pelo tempo estritamente necessário.
Esses não são conceitos novos. São fundamentos que os grandes bancos internacionais adotaram décadas atrás, exatamente depois de aprenderem as mesmas lições que o cooperativismo brasileiro está aprendendo agora.
A regulação como balizador
O Banco Central do Brasil tem endurecido os critérios de governança e controle interno para todas as instituições que operam no Sistema Financeiro Nacional, incluindo cooperativas de crédito. As normas recentes não são arbitrárias. Elas refletem um diagnóstico baseado nos ataques que se tornaram mais frequentes, mais sofisticados e mais rentáveis nos últimos dois anos.
Cada nova regulação é, na prática, uma resposta a uma falha que o sistema já enfrentou. Entender as portarias do Banco Central como ameaça ao cooperativismo é ler o sinal errado. Elas são o mapa dos riscos que precisam ser geridos.
Instituições que enxergam a regulação como parceria, e não como obstáculo, estão um passo à frente. Elas não se adaptam quando são obrigadas. Elas se preparam antes.
A postura da Cred.Ufes
A Cred.Ufes entende que segurança institucional não é departamento de TI. É cultura. É processo. É a forma como cada colaborador e cada liderança interpreta a responsabilidade de zelar pelo patrimônio coletivo dos cooperados.
Estamos revisando e fortalecendo nossas políticas internas de controle de acesso, segregação de funções e monitoramento de operações. Não porque fomos atingidos. Porque conhecemos o cenário, acompanhamos o que está acontecendo no sistema financeiro nacional e entendemos que antecipar é a postura mais responsável que uma cooperativa pode ter com seus associados.
Crescimento sustentável começa com segurança. E a Cred.Ufes está construindo o caminho com essa convicção.
Autora e publicação: Brunna Gambarini.



